São Vicente

Vicente de Paulo

1581-1660

Um génio da caridade

São Vicente de Paulo, um santo popular no mundo inteiro, a própria imagem da caridade !

No entanto, sua imensa obra em favor dos pobres não pode nos fazer esquecer que este incansável gascão realizou um trabalho igualmente importante na evangelização das cidades do campo e na formação do clero.

A sociedade, bem como a Igreja, conservam traços indeléveis de suas atividades.

Descobrir São Vicente de Paulo é descobrir a verdadeira dimensão de sua caridade, espiritual e material, uma mensagem para os dias de hoje .

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O tempo da ambição

Vicente de Paulo nasceu a 24 de abril de 1581 em Pouy, na França. Seus pais, proprietários da fazenda de Ranquines, eram fervorosos católicos. E entre seus seis filhos, Vincent dotado de espírito vivaz despertou as ambições do pai: este o destinou a uma carreira eclesiástica que privilegiava a ascensão social.

Vicente foi, então, enviado ao colégio de Dax. Aluno muito aplicado, sobressaiu logo por resultados brilhantes. Tornou-se preceptor junto a M. de Comet, advogado que muito apreciava as qualidades morais de Vincent e seu profundo senso de religiosidade, tendo o encorajado a seguir o sacerdócio. Em 1598, Vicente se instalou em Toulouse, para fazer seus estudos de teologia. Na morte de seu pai, Vicente recorreu a uma pequena pensão para estudantes, a fim de subvencionar suas necessidades. Em 1600, foi ordenado padre. Ainda não completara 20 anos!

Prossegue em seus estudos e em seu preceptorado, mas começou a se debater entre suas necessidades financeiras. E foi então que, em 1605, ele se beneficia de um legado, mas a quantia foi usurpada por um mau caráter que fugiu da região.

Vicente, convicto de seus direitos e decidido a se defender, partiu para Marselha onde encontrou o malfeitor, conseguindo que fosse preso e recebendo os 300 escudos a que tinha direito.

Satisfeito com a solução, retornou, desta vez por mar, com muitos projetos em mente. Em 1607, chegam notícias de Vicente. através de duas cartas a M. de Comet, nas quais ele relata uma dolorosa aventura: sua embarcação havia sido atacada por corsários turcos, foi capturado, vendido como escravo e mantido em cativeiro na Tunísia, depois na Algéria.

Vicente atribui seu retorno são e salvo à intercessão da Virgem Maria à quem ele nunca deixara de rezar. De Avignon, onde havia desembarcado, Vicente retomou sua caminhada. Partiu para Roma, onde passou um ano, e em 1608… Enfim … Paris!

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Inflamado por Deus

No bairro de Saint-Germain, Vicente divide um quarto com um compatriota. Segue os cursos de Direito Canônico, na Universidade da Sorbonne. Junto aos doentes, que visitava no Hospital da Caridade, teve um encontro que o transformou: Pierre de Bérulle, padre, futuro fundador do Oratório na França, grande espiritual que vai apoiar Vicente na dura provação de uma calúnia: vai ser acusado de roubo por seu próprio companheiro de quarto. Magoado, Vicente conservou uma heróica paciência. Esperou seis meses para que lhe fosse feita justiça.

Vicente instalou-se na rua do Sena, perto do palácio da rainha Margot, primeira esposa de Henrique IV. E graças às suas relações de vizinhança, foi nomeado Capelão da rainha : ele subiu assim um degrau importante em sua ascensão social.

Porém novo golpe atingiu Vicente: a dúvida. Tendo se oferecido a Deus para libertar um confrade, assaltado por sérias dúvidas da religião, Vicente o liberta, mas ele próprio é vítima da mesma provação do colega. Certo dia, no Hospital, Vicente derreado pelo sofrimento, faz uma promessa de consagrar sua vida aos pobres e aos doentes, se conseguir se libertar das tentações. E assim aconteceu! Vicente compreendeu o sinal de Deus e alguns meses depois, deu o primeiro passo de desapego, enviando ao Hospital uma doação vultuosa.

Que caminho percorrido! Vicente estava com 30 anos. As provações o tinham modificado. Descobrira, através dos ensinamentos de Bérulle, e de André Duval, importante teólogo da Sorbonne, a alta concepção do sacerdócio. As aspirações espirituais passam antes de suas considerações materiais.

E no dia 2 de maio de 1612, Vicente foi nomeado vigário de Clichy. Neste vilarejo, às portas de Paris, lá estava um padre feliz, transbordante de zelo e cuja piedade e vida exemplar edificavam os paroquianos. Vicente descobre seu sacerdócio.

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A irrupção da graça

Em 1613 Vicente foi nomeado, em Paris, preceptor de uma família ilustre: Philippe Emmanuel de Gondi, Governador Geral da frota do Mediterrâneo. Sua esposa, Madame Gondi costumava receber toda a alta aristocracia: os expoentes das ciências, das letras e das artes. E, cristã fervorosa, apreciava cada dia mais as qualidades de Vicente que tornou-se seu conselheiro espiritual.

Do momento em que ele conseguiu o que buscava, isto é, uma função honrosa numa família importante, o horizonte e a perspectiva de Vicente transformam-se completamente.

No inverno de 1617 Deus deu um sinal a Vicente. Em companhia da família Gondi, perto de Amiens, Vicente foi chamado para confessar um pobre enfermo que mais tarde dirá à Madame de Gondi: “Sem esta confissão, minha alma não se salvaria e eu estaria condenado para sempre!”

Estupefata com esta revelação, Madame de Gondi se apercebeu da intensidade do mal e suplicou a Vicente que agisse. E no dia 25 de janeiro, na igreja de Folleville, ele exortou os paroquianos a fazerem uma confissão geral. E os fiéis foram de tal modo tocados por Deus que vieram todos se confessar. E esta primeira missão daria origem a uma nova congregação. No entanto, Vicente se sentia constrangido, no Palácio dos Gondi. E resolveu partir secretamente para Châtillon-les-Dombes, perto de Lyon.

A 1º de agosto de 1617, instalou-se ali como vigário. Foi então que num domingo, justamente antes da missa, que vieram lhe dizer que todos os membros de uma família miserável, encontravam-se enfermos. E como acontecera em Folleville, Vicente, de seu púlpito, usou palavras fortes em sua homilia e os paroquianos se mobilizaram com seu apelo. Vicente reuniu as senhoras mais atuantes e escreveu um regulamento para uma associação. A 8 de dezembro de 1617, foi fundada solenemente a Confraria da Caridade. E assim Vicente confiava às mulheres leigas, uma missão na Igreja: o ministério da caridade.

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Vicente se decide pelos pobres

Depois desses dois acontecimentos que lhe tocaram o coração, o abandono espiritual e a penúria material, o mistério da presença do Cristo nos pobres, iluminou-se para Vicente.

A família Gondi reclamava sua presença em Paris. Não estava mais interessado em ser preceptor da família. Seu destino estava traçado: seria o diretor espiritual em todas as terra dos Gondi.

A partir de 1618 Vicente se lança numa obra audaciosa: ajudar os prisioneiros das galeras. Pelas descrições de Philippe de Gondi, Vicente bem podia avaliar a situação calamitosa dos presos nos porões das galeras, verdadeiras masmorras insalubres, onde os prisioneiros eram submetidos a toda a sorte de maus tratos.

E depois de uma visita à “Conciergerie” (antiga jurisdição da polícia de Paris) Vicente usou de seu prestígio junto a Gondi que toma a seu cargo uma grande reforma nos cárceres e cria o cargo de Diretor espiritual geral dos encarcerados.

Nesta época Vicente teve um duplo encontro inesquecível: São Francisco de Sales, cuja doçura e bondade foram um sorriso de Deus para iluminar sua caminhada e santa Jeanne de Chantal, co-fundadora da Visitação, da qual Vicente se tornará Diretor em Paris, alguns anos mais tarde.

O projeto de uma sociedade de padres, sob a direção de Vicente, torna-se realidade. Madame de Gondi junta fundos, consegue a construção do Colégio das Boas Crianças, em Paris. Em 17 de janeiro de 1625, o Senhor e a Senhora de Gondi assinam, com Vicente, o contrato da fundação da Congregação da Missão.

Tendo realizado o ideal que tanto acalentara em seu coração, Madame de Gondi vem a falecer a 23 de junho, assistida por Vicente que, alguns meses antes, encontrara santa Luisa de Marillac.

Vicente se instala no Colégio das Boas Crianças, isto já no outono, juntamente com seus missionários.

Quanto ao Senhor Gondi, ele tornou-se padre no Oratório.

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Amor à Igreja

Como para outras grandes figuras de seu tempo, Bérulle, Olier e São João Eudes, para Vicente a reforma do clero é urgente. Ele próprio passara dificuldades e tinha constatado, ao longo de suas missões, a ignorância do clero rural. Tudo isso acendia em Vincent o desejo de remediar essas falhas.

Em 1631, Vicente lança, em Paris, um “retiro para Ordenandos” que obtém grande sucesso. Estabelecido em 1632 no Priorado São Lázaro – origem do nome Lazarista – no ano seguinte Vicente organiza as “Conferências das Terças-feiras” para os padres jovens. Mais tarde instaura os retiros para padres e leigos.

Vicente funda, em 1642, um seminário para estudantes e outro para adultos, a fim de suprir as necessidades de sua Congregação.

Vicente trabalha ativamente na renovação da hierarquia católica do Reino. E chamado pela rainha Anne da Áustria, em 1643, para ter assento no Conselho de consciência.

Vicente acompanha a revolução no exercício da caridade que irrompera em 1617.

Com Luisa de Marillac, então engajada junto às Damas da Caridade, Vicente funda a Companhia das Filhas da Caridade, isto em 1633, mulheres consagradas a Deus mas não enclausuradas, ao serviço dos pobres. A primeira, Marguerite Naseau, morre cuidando das vítimas da peste.

Outro combate para Vicente é manter a integridade da fé.

É com inteligência, caridade, perseverança e fidelidade ao Evangelho e à Igreja de Roma que Vicente reprova uma corrente de pensamento: o jansenismo, totalmente condenada em 1653.

As numerosas interferências de Vicente demonstravam seu conhecimento de teologia, seu espírito crítico e seus dons de hábil pedagogo, sempre atento em juntar as almas em Deus.

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Caridade sem fronteiras

Vicente apressou-se em agir, através dos padres da Catedral de Notre Dame, em favor das crianças abandonadas nas ruas de Paris. As sobreviventes, abrigadas na casa de caridade de Couche-Landry, eram vítimas de maus tratos e, ainda pior, utilizadas, por vadios, para mendigar às portas da Catedral.

Em 1638, Vicente e Luisa de Marillac fundaram a Obra das Crianças Abandonadas. A guerra sacudia o país. A população esmagada pelos impostos passava fome. Os hospitais estavam sobrecarregados, as condições sanitárias eram desastrosas. Vicente, então, mobiliza verdadeiro exército da caridade enviando víveres, roupas etc…

Em seguida, a guerra civil assola Paris. A população faminta e dizimada pela peste é socorrida pelas Filhas da Caridade e pelos Padres da Missão. E Vicente, horrorizado pelas misérias com que convivia, resolve intervir junto à rainha e seu ministro Mazarin Vicente vai em socorro dos refugiados cujas famílias aristocráticas exiladas em Paris, estavam sem recursos; dos numerosos refugiados da Irlanda em Paris; parisienses vitimados pelas enchentes de 1652; dos escravos vendidos nos mercados da Algéria ou da Tunísia.

Todas as obras de caridade de Vicente proliferavam: as Confrarias da Caridade, as escolas gratuitas eram confiadas às Filhas da Caridade, as quais Vicente também enviava para junto dos presos das galeras, para quem um hospital foi aberto em Marselha. E as Filhas da Caridade eram enviadas também para cuidar dos velhos indigentes, no Asilo do Nome de Jesus.

Suas fundações implantaram-se fora da França: na Polônia, Itália e quanto aos Padres da Missão, foram para a África do Norte, Irlanda, Madagascar, Escócia e Ilhas Híbridas.

São Vicente morre a 27 de setembro de 1660. Para todos os pobres e por toda a parte, foi sempre um refúgio.

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